Um índio + 20

terça-feira, 19 de junho de 2012



* Por Alú Rochya
Em um dos shows  que adereçabam a Conferência Rio Eco 92, Caetano Veloso – acompanhado por Milton Nascimento- reapresentou ante um público bem apropriado uma antiga e inquietante música de sua autoria, titulada Um índio. Ela tinha sido gravada em 1977, sendo a quinta faixa do álbum Bicho. Por então, não era umas das músicas mais conhecidas do artista baiano. Mas na Eco 92 a música ecoou na consciência da multidão presente no recital. 20 anos depois Caetano entoou Um índio de novo, esta vez na Rio+20. E assistindo à presença maciça no evento de índios chegados de América, Asia e África, a música parece cobrar o sentido que alguma vez o próprio Caetano lhe deu: uma estranha profecia.   

E claro, ouvindo a letra que logo no início anuncia que um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante... e pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante, pelo menos uma parte da profecia lanzada ao ar em 1992 parece estar se cumprindo nesta Rio+20. E uma outra parte parece se anunciar misteriosamente nessa descida de tanto cacique, chefe, pajé, bruxo trazendo suas reclamações ambientais e territoriais mas também suas mensagens e rituais sagrados e até hoje ocultos para o grande público, justamente no simbólico ano de 2012, o ano da profecia maia do fim dos tempos.

Um índio + 20 (+100, +200, +300, +1.000)... Centenas de indígenas procedentes de três continentes se reuniram no Rio de Janeiro para acender o "fogo sagrado" que alumiaria os espíritos durante dez dias de atividades paralelas à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20. A cerimônia foi celebrada em uma aldeia chamada Kari-oca, instalada pelos próprios indígenas em uma área florestal no bairro de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro.

Ativo participante da Cúpula dos Povos, o líder maia Tata Pedro Cruz, procedente da Guatemala, afirmou que o fogo sagrado significa "o espírito de Jau (Deus) que está em cada pessoa" e representa uma "mensagem de amor, de unidade e de irmandade".

O chefe sioux Phil Jane, natural do Canadá, afirmou que "hoje é o dia  em que comeca o cumprimento das profecias" no qual os povos que acreditam na proteção da natureza "vão se levantar com um só coração".

"Quando a última árvore for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, aí sim vocês verão que dinheiro não se come..." Essa advertência visionária feita pelo grande Chefe Seattle em 1856 é apenas uma amostra de quanto os povos indígenas foram sempre conscientes e protetores da Mãe Terra, reconhecendo, com humildade, o óbvio: que dessa mãe a gente mama e, por tanto, é graças a essa teta que sobrevivemos. Então, preserva-la e cuida-la é um mínimo exércicio de inteligência.

A grande escuridão
Quando, a mais de 500 anos, aqueles apaixonados e aventureiros navegantes ingleses, franceses, holandeses, espanhois e portugueses se encontraram com esse portentoso continente batizado mais tarde como América, tudo corria numa boa por estes vales de Deus. Teto-abrigo-comida  mais  amor-saúde-paz jamais faltavam. Quer dizer, se tinha tudo o necessário para fazer a experiência humana que viemos a realizar no planeta Terra.

Se você pára um pouco para pensar, poderá advertir que, em verdade, não precisamos de mais nada. O resto é invenção humana -como a soja transgénica-, expressões culturais que podem ser cultivadas e experimentadas em tanto não gerem nem o mais mínimo dano a nossa Mamagaia, a nossa teta. Caso contrário colocamos em risco nossa própria sobrevivência. E desse jeito sabotamos nosso próprio plan de aprendizagem, de crescimento, de evolução pessoal. Se temos que correr atrás do mero objetivo de sobreviver, deixamos de ir atrás de nossos sonhos.

Na hora em que aqueles aventureiros navegantes pisaram solo americano se transformaram em conquistadores avassalantes, arrasando com tudo que se interpusesse no seu caminho até El Dorado, um lugar imaginário, uma ilusão de achar o ouro eterno que lhes daria poder eterno e acesso eterno às eternas invenções humanas. O final é conhecido. Jamais acharam o que não existia e o custo da imbécil aventura resultou alto demais.     

Uns 5 milhoes de índios foram dizimados. Toda a organização e cultura nativa, foi devastada. E o sagrado modo de viver harmonizado e em paz com a natureza do planeta e a natureza cósmica foi arrasado.


A maioria daqueles conquistadores faziam parte do lixo humano de uma Europa já em decadência. Ladrões, assasinos, esteloniatários, estupradores. Homens sem Deus, de alma podre fazendo uma vida desacralizada, apostando tudo na salvação da matéria. Frustrados pelo fracasso de não achar o cobiçado ouro decidiram se apropriar das terras alheias. E por esse caminho da roubalheira acabaram construindo uma civilização predadora, cheia de invenções inutéis que até hoje consumimos sem parar, devorando cinícamente os recursos. Uma civilização afastada das leis da natureza -como acontece com a soja transgénica- que destrói a terra colocando em risco nossa elementar sobrevivência.

Na época daquele monumental arrastão que se levou, como um impiedoso furação, o teto-abrigo-comida dos nativos e o amor-saúde-paz das várias tribos, os grandes caciques foram advertidos pelos espíritos das divindades. Uns tempos de grande escuridão estavam começando. Tempos donde o pior do ser humano iria a se revelar. Um ciclo civilizatório estava acabando, alcançando o seu paroxismo.

O fim dos tempos
Mas esses tempos teriam um limite, uns 500 anos. Pois depois de alcançar o apogeu, só restaria a descida. E assim como o momento mais escuro da noite é justo mesmo antes do amanhecer, assim aconteceria com o planeta e com a humanidade. Finalmente, chegariam, como contam as profecias maias, o fim dos tempos escuros.

Um índio + 20 (+100, +1000...) parecem estar saindo da larga noite, e chegando até nós, trazendo o fogo sagrado, a luz de um novo amanhecer. Incas, sioux, iorubás, caiapós, guaraníes, aztecas, terenas, bambaras, mapuches, inuits... Nosso vovôs, voltando do além, trazendo as mensagens de seus manuais estelares para nos ajudar a parir uma nova civilização. Trazendo a mais avançada da mais avançadas das tecnologias que vem embutida na mais avançada das mais avançadas das energias cósmicas que é o amor.

Para os antigos povos andinos o fim dos tempos de escuridão aconteceria com o retorno de seu grande senhor Viracocha. Para os maias seria com a volta de Quetzalcóatl, a Serpente Emplumada. Para outros seria com a volta do Pai Seta Branca, o mesmo que teria inspirado Caetano para anunciar a chegada de um índio que viria a nos revelar algo surpreendente, não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando, na verdade, terá sido o óbvio: "Quando a última árvore for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, aí sim vocês verão que dinheiro não se come...".  

O clima que rodeia a Conferência Rio+20 é de muita reclamação. E quase tudo que é cobrado e denunciado faz sentido. A declaração final do evento e os compromissos que adotarão os governos não será tudo aquilo que é necessário para reverter o atual desastre civilizatório. Mesmo assim já será um avanço, uma forma de concientizar o mundo.

E ainda assim, não será o mais saliente e determinante. O mais importante deste evento é que inúmeros grupos das mais variadas cores (índios e não índios) se encontraram em Rio de Janeiro para desvendar as mensagens profundas e ocultas que nos falam da ineludível tarefa de construir um mundo justo, amoroso e belo onde cada um de nós podamos ir trás nossos sonhos como meio de alçancar a cura de nossas almas. Por trás dessas mensagens, poderá haver os mais diversos mensageiros. Mas, entre eles, sempre haverá um índio. 

Cacique Raoni.

Um índio,  na belíssima versão de Milton Nascimento.
Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé filhos de Ghandi, virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico

Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio.

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