Poliamor, um impulso natural?

domingo, 24 de novembro de 2013



* Por Alú Rochya


Luz tem dois maridos. Seus maridos são, vamos dizer, tolerantes com as vivências amorosas que Luz ainda procura por fora do duplo matrimônio. Constantina disse não resistir desejar a mais de uma pessoa ao mesmo tempo e então curte varios namorados. Coisa parecida sucede com Leandro que ainda procura seu grande e único amor mas por enquanto mantém relacionamentos simultáneos e destapados com tres garotas. E por aí vão as experiências reais do chamado poliamor retratadas, tempo atrás, numa matéria bacana assinada pela Patricia Edgar no jornalão argentino Clarín e que eu rescatei do meu arquivo.

Mas o que é esse negócio do poliamor? Bem, o assunto, assim com esse nome, floreceu nos Estados Unidos, na década de 1980 e enseguida tornou-se um movimento social, o Polyamory, dito em inglés. Indo na contramão da clássica monogamia, os poliamorosos achavam que para as pessoas era mais natural, saudável e feliz amar a mais de um congénere ao mesmo tempo e ser amado e curtido também por mais de um. Porém a nova onda -e a polêmica inevitável- ficou restrita àquele país, Inglaterra e Alemanha. Muito fogo teve que arder por baixo dos lençois até acontecer a Primeira Conferência Internacional sobre Poliamor em Hamburgo, Alemanha, já em novembro de 2005 e colocar o assunto na agenda de um mundo com seus sistemas e morais dominantes em xeque.

Ora bem, nesse tempo todo, nos trópicos sul-americanos não houve movimentos sociais, ONGs ou coisa parecida. Publicamente a nova bossa quase que não veio à tona. Porém, caladinho, o pessoal já experimentava direito na sua própria pele. Não foi por acaso que Dona Flor e seus dois maridos fora um sucesso singular e até estranho. O romance de Jorge Amado foi um fenomeno que saiu das livrarias para o cinema derrubando recordes de bilheteria, se apoderou do horário nobre da televisão feito novela e estourando ibopes, para voltar às livrarias devorando uma edição após outra.

O que será, que será?
Os brasileiros celebravam aquele triângulo amoroso por alguma razão. Alguma coisa até então não dita, não explicitada socialmente havia existido até aí em estado latente no coração, na psique, na memória celular dos maridos e das donaflores de todo canto e recanto. O povo não perdia tempo em ensaios sociológicos, porém aplaudia –maroto, alegre, entusiasmado- a prática aberta da bigamia exhibida pela bela e sensual quituteira.

A maciça aprovação social que a poliamorosa Dona Flor obtinha para curtir dois maridos ao mesmo tempo e na mesma cama era o álibi que a manha brasileira achou para faturar a implícita autorização moral do eterno, famoso e sempre condenado corno. As mulheres, claro, adoravam o comportamento desregrado de Dona Flor e sonhavam com protagonizar uma estorinha dessas na vida real. Os homens consentiam na malícia, sabedores da lei da reciprocidade.


Depois da vanguardista Dona Flor a monogamia perdeu seu status de lei irretocável. O próprio filme levou isso tudo a outros países da América Latina, onde o sucesso tinha as mesmas raízes: a vontade de acabar com o papo moralista da monogamia e tornar a questão da fidelidade em isso mesmo, uma questão, uma interrogação, algo a ser interpelado, revisado.

É que o mundo muda. Mesmo que não pareça, muda. E o está fazendo rapidinho, viu? Enquanto uma maioria desastrada faz com que o globo se pareça com planeta dos símios, tem gente por aí prestando ouvidos a sua alma e às novidades que ela traz.

O karma continua estando aí, como uma energia antiga, caindo em desuso, ainda que continue disposto a fazer o velho serviço de nos guiar em nossa caminhada pela vida. No entanto, a gente evoluiu o necessário para adotar decisões independente do karma, em pleno goze da abençoada liberdade. O livre arbítrio está aí, a nossa inteira disposição. É só dizer adeus, karma, obrigado por tudo, valeu... e começar a caminhar com as próprias pernas. O mundo, a vida e o próprio ser humano são vastos territórios para serem atravessados em corajosas aventuras propiciadoras de maravilhosas descobertas. Amar e permitir ser amado de maneira múltipla e simultânea parece ser uma delas. Será?

Muito mais que sexo livre
Para os poliamorosos (gosto mais do termo poliamoroso do que poliamorista) a monogamia não é um princípio nem uma necessidade. Eles acatam o impulso natural do ser humano de se relacionar com várias pessoas ao mesmo tempo. Isso é assim porque o sexo não é tido como a base dos relacionamentos amorosos mas sim o companheirismo e a amizade. A idéia principal é admitir uma variedade de sentimentos que se desenvolvem em relação a várias pessoas.

O clássico romantismo do amor tipo Romeu e Julieta, onde uma pessoa pode completar outra e dois parceiros vão se transformar numa só pessoa, vai ficando velhinho. Sem idealização, você pode se relacionar com a pessoa do jeito que ela é, mesmo que ela não seja aquela coisa absoluta da completude. Dessa maneira os espaços antes restritos a uma pessoa só agora se ampliam dando lugar a outras pessoas que também podem ser amadas ao mesmo tempo.
       

Mas onde é que pode se achar o fio da meada? A psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, autora do livro A Cama na Varanda, brinda uma pista: “A partir de 1940 –aproximadamente-, o amor romántico se converteu em um fenómeno de massas; todos passaran a desejar esse amor que propoe a fusão dos amantes. Porém, depois chegou a pílula que separou o sexo da procreação e juntou o sexo com o prazer. Entretanto, nossa época se caracteriza pela busca da individualidade. Assim, a idéia da fusão deixa de ser atraente e fica pra trás a exigencia da exclusividade".

Uma pessoa poliamorosa não aceita a idéia de que o parceiro possa completá-la de todas as maneiras e nem mesmo que os dois vão se transformar numa só pessoa. Falando sério, ninguém tem a capacidade de complementar a outra pessoa em todos os aspectos e ainda menos suprir todas suas necessidades. Super-homem e Mulher Maravilha, só na fantasia.

Os praticantes do poliamor se liberaram da maluquice de andar pela vida procurando o par perfeito. Eles puderam deixar de lado esa obsessão ao experimentar uma visão mais realista das coisas que lhes permite reconhecer as limitações próprias e do outro. Isso permite uma maior compreensão dos defeitos e das diferenças dos parceiros. Essa prática ajuda a romper aquele medo da solidão, do abandono, da traição, típico das relações monogâmicas.

Chega de ciumentos
Para a Regina, o conceito de fidelidade é um valor imposto. Ela afirma que no principio a idéia de casal, de parcería, não existía. “Cada mulher pertencia a todos os homens por igual e cada homem, a todas as mulheres”. Ela pesquisou que, quando foi estabelecido o sistema patriarcal, uns cinco mil anos atrás, começou a exigir-se fidelidade da mulher, porque o homem tinha medo de deixar sua herança a um filho de outro. E com a chegada do cristianismo, a fidelidade foi ordenada para ambos gêneros. “E a partir de então, o sexo exercido só como prazer passou a ser considerado abominável”.


É por isso que para os poliamorosos, o qualificativo de traição é sinônimo de posse. Antes tinha a ver com a posse dos bens. Já sem bens, o interesse passou para a posse da pessoa mesma. O amor verdadeiro não requer possessividade e sim liberdade. O fato do parceiro vir a se sentir atraído ou até mesmo amar outra pessoa não significa que esteja deixando de amar seu primeiro companheiro e sim que encontrou em outra pessoa outra característica que lhe agrada e que o complementa.

Os ciumes são coisa corriqueira porque (mal) aprendimos que quem ama não sente interesse por mais ninguém, disse a Regina e acrescenta: “Os homens como as mulheres podem amar alguém, ter um sexo ótimo e mesmo assim desejar um relacionamento com outra pessoa. Variar é bom”. Ela acha que nenhum relacionamento fica questionado pela mera existência de outro relacionamento. Cada relação deve ser avaliada pela sua capacidade intrínseca de manter-se e se desenvolver, independente de tudo.

Poliamor responsável
Os poliamorosos argumentam que transparentando tudo você consegue que os seus parceiros sejam mais honestos entre si, sendo a fidelidade já não uma imposição social, moral ou religiosa mas um sinônimo de confiança mútua.

Não se trata de trocar uma obsessão por outra. Por tanto o poliamor também não é a busca obsessiva de novas relações mas sim o fato de ter essa possibilidade sempre em aberto, naturalmente. E demanda total honestidade, porque o princípio é que todas as pessoas envolvidas deven estar à par da situação e se sentir confortáveis com ela, nem enganando nem magoando ninguém.

Assim, defendem a possibilidade de envolvimentos responsáveis, profundos e até mesmo duradouros com dois ou mais parceiros, simultaneamente.



Aceitando o princípio de que nada e perfeito, aceita-se que o poliamor tem suas vantagens e desvantagens. Com a alma liberada, permite uma importantíssima redução do estresse pois você não precisa andar mentindo, enrolando, ocultando para ter o outro em sua vida. Com um leque maior de alternativas a satisfação sexual também é maior. Aprendizado de tolerância, clareza dos sentimentos, paz de espírito afetivo e educação conjunta de filhos, são ganhos certos. E até pode-se fazer economia doméstica, já que a relação pode envolver mais de duas pessoas.

Do lado dos contras, deve se ter em conta que a casa fica maior, é necessário ter habilidade de negociação, aprender a lidar com o repúdio e incredulidade social e que nem sempre é fácil liquidar o ciúme e o sentimento de posse.

O mundo anda precisando é de muito amor, para abrigarnos. E as pessoas andam precisando de muita liberdade para poder se encontrar a si mesmas. O poliamor parece ser uma interesante contribução nos dois sentidos. Dona Flor já fez sua parte. Agora, é com a gente.q
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