O primeiro partido da nova política

sexta-feira, 10 de abril de 2015


O espírito de mudança dos protestos sociais de junho de 2013 começam a ter projeção política. 

Em meio a crise institucional pela que passa hoje o Brasil, onde os partidos tradicionais se mostram absolutamente impotentes para dar respostas que fortaleçam e façam evoluir a democracia, surge uma nova proposta política com o intuito de se transformar, aos poucos, numa opção partidária que vise os interesses da maioria dos cidadãos em vez dos interesses da elite minoritária de políticos e empresários, hoje na berlinda por causa das práticas de corrupção.

E já nasce diferente, com nome mais de ONG que de partido. Raiz-Movimento Cidadanista acaba de ser lançado por pessoas procedentes de diversas experiências, inclusive dissidentes da Rede Sustentabilidade -desiludidos com o oportunismo de Marina Silva nas últimas eleições- e pretende se afirmar como uma alternativa viável aos 70% de brasileiros que, segundo as pesquisas, não se sentem representados por partido nenhum.

O novo grupo parece ter conseguido catalisar em sua carta de intenção as múltiplas demandas e os difusos anseios dos manifestantes que ganharam as ruas em junho de 2013, que então expressaram um espírito de mudança mas sem poder explicitar que tipo de mudança era essa. Analistas os mais diversos coincidiram em interpretar, até com asserto, que aquelas multidões reconheciam os avanços econômicos e sociais experimentados nos últimos anos no Brasil porém agora demandavam uma maior qualidade dos serviços -principalmente educativos e de saúde- na procura de uma democracia mais qualificada. Uma boa leitura geral porém superficial e insuficiente que não alcançou a traduzir aquilo que sequer os próprios manifestantes tinham claro.

A novidade que traz o nascimento desta organização é que pela primeira vez tenta-se, com seriedade analítica e compromisso prático, ensaiar uma tradução -básica, primária, inicial-  daquele espírito derramado nas ruas. E nesse sentido o  movimento Raiz se revela ousadíssimo quando apresenta sua Carta Cidadanista apoiada num tripé filosófico com conceitos inéditos no campo da (transviada) política brasileira: 

  1. O ubuntu, palavra africana que designa uma ética onde cada um reconhece que sua própria existência individual é possível pela existência de todos os demais, conceito usado por Nelson Mandela para unir a África do Sul; 
  2. O bem viver, singela frase na que se baseia a maneira simples e sustentável de viver pregada pelos povos originários da América, definição que já faz parte das atuais Constituições  Nacionais da Bolívia e do Equador; 
  3. O eco-socialismo, ideia que preconiza a prioridade do bem comum numa sociedade organizada em torno da imprescindível sustentabilidade.           


Nas ruas e nas redes      
Segundo os organizadores, o Raiz pretende iniciar um processo de divulgação, debate e enriquecimento da proposta antes de começar a coletar assinaturas para solicitar o reconhecimento legal como partido eleitoral. "Não queremos cometer o mesmo erro da Rede Sustentabilidade que, correndo atrás das assinaturas deixou de lado o debate e as definições e, no final, deu no que deu" salientam.

Segundo o expressado na Carta Cidadanista, pretende-se um partido de novo tipo que construa pontes para o diálogo entre os cidadãos e não atalhos para as castas dirigentes. Um movimento social e um partido político, ao mesmo tempo. Um partido que se construa nas ruas e também nas redes que integram os “debaixo”. "Nós nos recusamos a sermos transformados em mais uma engrenagem do jogo do poder".


Nesta fase transitória o movimento se propõe a ser um laboratório de experimentações em busca da igualdade política que significa o reconhecimento de que pessoas comuns, quaisquer cidadãos, tenham capacidade e meios para interferir nos rumos comuns da sociedade. "Buscamos um novo patamar de democracia, formada por sujeitos autônomos, capazes de gerir suas vidas e participar da gestão da vida pública. Não queremos mais um partido para as pessoas, queremos um partido com as pessoas".

Os plantadores da nova Raiz imaginam um partido ao mesmo tempo amplo, horizontal, democrático e constituído por círculos autônomos e protagonistas, que se inter-relacionem uns com os outros, igualmente de forma autônoma e democrática. Círculos como unidades de participação e respeito à diferença e à construção do comum. Círculos temáticos (reforma urbana, política de drogas, ambientalismo, etc.), territoriais (por estados, cidades, bairros, comunidades, escolas, universidades, locais de trabalho) ou identitários (LGBT, indígenas, jovens, etc.). Basta ter a iniciativa de criar um círculo e juntar pessoas para que ele seja criado.



Com certeza não será fácil a vida e o desenvolvimento de esta proposta pois ela está basada em novos paradigmas totalmente alheios àqueles da velha e decadente política, cuja compreensão exige pelo menos mentes abertas, o que hoje é um bem escasso nos círculos do poder. Mas ao mesmo tempo as novidades que o discurso do Raiz traz produzirá desafios sedutores para aqueles cidadãos que sintam chegada a hora da responsabilização dos indivíduos e da participação direita na formulação da sociedade e da cidadania desejadas pelas maiorias. Uma nova experiência política está em marcha. O tempo dirá em que vai dar.q
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