Consumo consciente não tem crise

terça-feira, 19 de abril de 2016



Com a crise econômica que atravessa Brasil, 57% dos brasileiros alteraram seus hábitos de compra, segundo pesquisa realizada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), em junho de 2015. Hoje o índice pode estar um pouco pior. E reduzir o consumo pode ser difícil para quem nunca pensou nisso, mas quem já é adepto de um estilo de vida mais simples tem enfrentado o atual momento econômico sem grandes traumas. A seguir veja três histórias de quem adotou o consumo consciente.

● Fernanda Marinho, 35 (gerente de projetos)
"A virada para ter uma vida mais simples aconteceu em 2012, quando voltei a viver com minha família e percebi que tinha coisas demais para colocar em um quarto minúsculo. Como sempre economizei muito, guardava tudo, tinha até roupas de quando era adolescente. Uma das minhas melhores amigas e eu começamos a ler sobre adotar um estilo de vida mais simples. Além da economia, o minimalismo reduz o tempo gasto à toa. 

Meu marido e eu temos uma casa simples de limpar, por exemplo. Consumir menos reduz o estresse, hoje tenho uma vida muito mais tranquila. A crise não me atingiu. Tenho sorte de não ter perdido o emprego, é claro, mas, mesmo com tudo mais caro, não me preocupo, porque consumo muito pouco. Não tenho TV a cabo, não tenho dívidas. Não se trata apenas de comprar menos, mas também de ser consciente. Não é preciso tirar todas as alegrias da vida, mas, sim, o que está sobrando".

 Camilo Bracarense, 36 (designer)
"Sempre me incomodei com a ideia de que é preciso ter um patrimônio para ser bem-sucedido. Minha mulher, Rúbia, e eu morávamos no Paraná quando nossa filha, Manu, nasceu. Aos cinco meses, ela já estava na creche, enquanto nós passávamos o dia no trabalho. Foi muito difícil perder tudo o que ela fazia pela primeira vez. Decidimos mudar isso. Em julho de 2013, deixei meu emprego, procurei frilas (trabalhos free lance) e conheci pessoas que buscavam consumir conscientemente. Voltamos a viver em Minas Gerais em janeiro de 2014. Viramos vegetarianos e fizemos uma horta que provê boa parte da nossa alimentação. 

Somos mais livres, temos mais tempo com a família. Nossa criatividade aumentou e os pensamentos positivos também, porque o consumo consciente faz reduzir as expectativas. Até os relacionamentos ficaram mais saudáveis. Financeiramente, a crise não nos atingiu. Nossas necessidades são pequenas, ganhamos e doamos coisas, e a Manu tem poucos brinquedos. Se a gente quiser sobreviver nesse planeta, vamos precisar mudar, gerar menos lixo, saber aproveitar melhor a água. Mudar é difícil, é dolorido, mas é preciso".

 Elisangela Silva Souza, 28 (consultora de TI)
"Em 2012, entendi como os conceitos de minimalismo, simplicidade voluntária e vida simples faziam sentido para mim. A primeira atitude que tomei foi repensar tudo o que consumia, onde colocava minha energia e minhas motivações. Venho de uma família pobre, não ter muitas coisas era comum até os meus 18 anos. Até comida faltou na nossa mesa. Quando conheci o minimalismo, essa fase já havia sido superada. Mas, com o primeiro trabalho registrado e os novos ambientes, passei a receber novas referências que me pediam uma adequação para ser aceita. Passei a querer ter coisas para ser parte de um grupo ou para me sentir bem. 

Quando mudei minha relação com dinheiro, autoestima, status e consumo, minha situação financeira começou a melhorar. Fiquei um ano sem comprar roupas ou itens pessoais, direcionando meu dinheiro para realizar sonhos. Planejei meu casamento sozinha e fiz minha primeira viagem internacional. Desde que comecei a ter consciência do impacto que o consumo causa -não só na minha vida, mas no mundo-, tenho vivido muito melhor. Assumo que tenho o poder de mudar, pelo menos um pouco, a parte da cadeia produtiva que explora e destrói, e faço isso consumindo menos. O consumo consciente não é bom só para o bolso, é bom para nossa liberdade de escolha e para o mundo que nos cerca".q

* Por Andrezza Czech (via Uol Mulher)
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