Tiradentes, o futuro que chega devagar

quinta-feira, 21 de abril de 2016



A cidade de Tiradentes -no estado brasileiro de Minas Gerais- parece conservar o espírito revolucionário adjudicado a aquele de quem herdou o nome. Joaquim José da Silva Xavier, apelidado de Tiradentes porque exerceu –entre outras várias atividades- o ofício de arrancar dentes estragados, é tido -não sem polêmica- como   foi um dos heróis das tantas rebeliões que perseguiram independizar as terras brasileiras do domínio colonial de Portugal. Ele acabou sendo preso e enforcado por ordem das autoridades portuguesas o 21 de abril de 1792.  Por isso o dia 21 de abril é feriado nacional no Brasil, como uma forma de reivindicar, mais que a Tiradentes, o caro valor da liberdade e da independência.

Florindo aos pés da serra de São José -território natal de Tiradentes- a cidade que o lembra para sempre promove hoje uma outra revolução: a revolução da lentitude. Uma existência devagar para viver melhor, buscando elevar ou manter a qualidade de vida de seus cidadãos por meio da valorização de sua cultura, gastronomia, espaço rural e urbano.

Essa proposta que questiona radicalmente o ritmo alucinado das grandes cidades e a aceleração irracional do lucro capitalista é encarnada pelo movimento internacional denominado slow cities (cidades lentas), que articula uma rede de cidades que, na América começam a ser chamadas como cidades do bem-viver. 

Nascido na Itália, o movimento já tem endereço em 70 cidades desse país e se expandiu por 29 países de Asia, África, Europa, América do Norte, América do Sul, Oceania. As cidades lentas pregam por um tráfego de carros menor, menos barulho, menos multidões. E o grande objetivo é resistir à homogeneização global, apoiar a diversidade cultural e as especialidades locais.

Feira de produtores locais em Tiradentes.
As cidades candidatas ao selo Slow City – certificação de qualidade de vida – passam por uma seleção. Precisam ter menos de 50 mil habitantes e seguir rigorosamente 55 princípios ligados ao cuidado com o meio ambiente, sustentabilidade urbana, infra-estrutura, incentivo aos produtos e produtores locais, hospitalidade, prioridade aos pedestres em vez de aos veículos motorizados,  senso de comunidade, preservação da cultura e dos patrimônios históricos.

No Brasil, apenas duas cidades são atualmente candidatas a serem incluídas oficialmente no organismo internacional denominado Cittaslow: Antônio Prado (Rio Grande do Sul) e a mineira Tiradentes. Esta cidade de 7 mil habitantes -localizada a 200 quilômetros da capital do estado, Belo Horizonte-,  não precisou mudar muito de ritmo para preencher a solicitação, pois as características do bem-viver já estavam presentes há muito tempo. Agora a preocupação é mantê-las. A participação no movimento não diminuiu a atividade econômica, pelo contrário permitiu a promoção de novas atividades e acabou atraindo pessoas de grandes centros urbanos que, fugindo do estrese, se mudaram para Tiradentes e abriram pousadas e restaurantes, gerando novos empregos.
Festival de Cultura e Gastronomia em Tiradentes.
A Associação Empresarial de Tiradentes, acredita que esse movimento será um marketing positivo para a cidade. “Temos um belo e preservado patrimônio histórico, emoldurado pela serra São José;  e a cidade é cercada por natureza exuberante. Agora é hora de os moradores e turistas aos poucos compreenderem a idéia do movimento. Educação patrimonial, coleta seletiva do lixo, saneamento básico, educação ambiental nas escolas e creches são ferramentas básicas para melhorar a qualidade de  vida e alcançar o selo de Cittaslow ”.

Que será o selo de uma revolução mais ampla e mais profunda daquela que fazia parte o próprio Tiradentes. Um paradigma do terceiro milênio para conquistar a independência da comunidade para sobreviver e desenvolver-se e a liberdade das pessoas para ter mais tempo e qualidade de vida para a realização de seu espírito.

Levanto, o modelo
Na Itália, a cidade de Bra, no Piemonte, com 27 mil habitantes, é a sede do movimento cidades lentas. Porém, a experiência que Levanto começou há mais de uma década é considerada tão bem sucedida que é chamada de modelo Levanto.

No mapa geográfico, ela aparece na região da Ligúria, a uma hora de Gênova. É a porta de entrada do Parque das Cinco Terras, Patrimônio Natural da Unesco, com rochas cultivadas, um Mar Mediterrâneo transparente e um santuário de baleias.

Levanto, mar e montanha.
Em uma paisagem de rochas e mar, em um terreno selvagem e até hostil, 5.000 habitantes tentam construir a cidade ideal: bonita, humana, autossuficiente e lenta. Na cidade ideal a maioria dos carros são dos turistas, pois o prefeito vai trabalhar de bicicleta, assim como o cozinheiro, o artista, a comerciante e o guia turístico. Em Levanto, todo mundo pedala em lugares inesperados.

Levanto mudou em pouco tempo. Fatos históricos deram o empurrão. Até o fim dos anos 80, a maioria da população trabalhava em uma indústria de armas, perto da cidade. Com a queda do muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, esse mercado acabou. A cidade iria falir se a prefeitura não tivesse agido rapidamente. E o que fizeram? Traíram de volta um modelo de vida das suas tradições, procuraram no passado a sua identidade cultural.

A cidade de Levanto possuía a vocação natural para o turismo. Mas, para criar um turismo diferente era preciso mudar algo difícil: a forma de pensar. Foi o ex-prefeito Marcello Schiaffino quem começou a grande transformação. Enviou uma carta a cada uma das 2,5 mil famílias de Levanto. "Decidi escrever: quem tem ideia e vontade de investir, nós vamos ajudar”, explica.

Casa de família virou pousada para o agroturismo.
As famílias começaram a transformar as próprias casas em pequenos hotéis -conta ele-, oferecendo cama e café da manhã, e a abrir pequenos negócios. Era importante impedir que a população abandonasse a cidade. Porque turista não gosta só de praia, também quer conhecer o povo com as suas tradições. Cada um fez a sua parte.

O chef Lorenzo Perrone recusou convites para trabalhar em Roma e Milão e ficou na cidade natal para recuperar pratos esquecidos, como o gattafin, um delicioso pastel recheado com ervas, e o bolinho de bacalhau, que na Itália já foi comida de rua. “Antigamente se fazia o cone com papel de pão e se comia nos bares com vinho branco. Nós, italianos, temos paixão por aperitivos”, conta Lorenzo.

Luigina Piselli, que produz a mão o melhor pesto genovese de todo o vale, abriu uma loja de delícias locais. As suas aulas de culinária são muito atraentes. Luigina sustenta que o pesto genovese é o molho mais amado no mundo, depois do de tomate. “Teve um momento em que a minha filha quis ir embora, mas decidiu ficar. Aqui é bom para os filhos crescerem. Eu penso que entre nós, italianos, exista esta vontade de procurar estes gostos do passado", aponta. A filha também abriu um pequeno negócio. E as quatro gerações da família puderam permanecer juntas.

A bicicleta, a estrela maior de Levanto. 
O escultor Renzo Bighetti que viajava pelo mundo, desembarcou em Levanto, para ficar. “Escolhi viver uma vida mais recolhida, lenta e meditativa. Gosto de andar por aqui de bicicleta. É meu modo introspectivo de procurar coisas. Pareço um preguiçoso, mas sempre encontro uma ideia para trazer ao atelier e dar forma", explica.

Marco Scaramucci abandonou os trens de alta velocidade, onde era fiscal de passagens, para se tornar guia turístico no mar e na terra. "Antes, eu fazia uma coisa da que não gostava, mas fazia para fazer feliz outra pessoa. Depois, decidi ser feliz eu mesmo”, revela. “Se eu dissesse como fiquei reduzido economicamente, deveria ser estressado. Vendi uma casa, a outra está hipotecada. Mas estou feliz e não tenho estresse".

Os esforços por uma vida melhor e mais saudável poderão ser inúteis, se a cultura da velocidade não for revista. No pensamento moderno, o tempo é uma riqueza que está escasseando, como o petróleo ou a água. E a sensação de falta de tempo parece ser uma doença crônica, sem remédio. Porém, Levanto, na Itália e Tiradentes, no Brasil, acham que a cura pode estar em seu próprio modo de ser. Tranquilo,  calmo, devagar, devagar. Do mesmo jeito que está chegando o futuro.q
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