A espiritualização da vida pública

segunda-feira, 16 de maio de 2016


Karl Marx e Jesus Cristo.
*Por Jonathan Rowson 

Hoje, o sentimento popular predominante é de irrefletida confusão espiritual. Os noticiários modernos estão inundados de referências religiosas, mas o comentário sobre perspectivas, experiências e práticas espirituais mais amplas, é no geral relativamente subdesenvolvido.

O Papa, por exemplo, quando faz seus apelos para uma ação mais efetiva com relação às alterações climáticas, consegue atingir bem mais além dos fiéis católicos. Mas onde está a linguagem do medo, culpa, esperança e ameaça existencial que está subjacente à preocupação climática? Nossos bispos apelam para uma maior imaginação política para conectar nossa vida interior com aquela exterior.

Mas além das esperanças oblíquas de pensadores como Russell Brand com vistas a uma revolução no âmbito da alma, onde estão as formas e modelos de vida sugeridos que vão além da doutrina religiosa? E nós, com razão, perguntamos em que sentido o Estado Islâmico é islâmico, já que ele não parece Estado e nem islâmico. Mas podemos dar uma resposta adequada a seus atos bárbaros de violência sem uma discussão mais aberta e honesta sobre os aspectos mais sombrios da nossa própria natureza?

Fora das grandes instituições religiosas, que já não falam mais em nome da maioria das pessoas, nós não parecemos estar equipados para explorar toda a profundidade e amplitude da experiência humana. Estamos espiritualmente confusos, no sentido de que temos de lutar muito para pensar e conseguir falar coerentemente de coisas que são profundamente mais importantes para nós como, por exemplo, quem e o que amamos, o que nos dá orgulho ou sofrimento, e o fato de que fatalmente iremos morrer.

Achar que tais questões fundamentais relativas à vida são privadas, pessoais e localizadas, é precisamente o problema. Insistir nas motivações e nos valores expressos através de tais experiências e reflexões pode ser central em qualquer tentativa séria de re-orientar a sociedade. O ator Michael Sheen não está sozinho ao considerar que o alarido político que agora nos é oferecido como sendo política grande e verdadeira, é, na verdade “um pântano gelatinoso e monótono de neutralidade”.

Revitalizacão da espiritualidade
A RSA 21st Century Enlightment, uma organização que geralmente se concentra em tópicos mais convencionais de política pública, como empreendimento, educação e crescimento das cidades, reconheceu este desafio em um novo relatório chamado Spiritualise. O relatório foca nas formas de revitalizar nossa compreensão e apreciação da espiritualidade para enriquecer o debate político do século 21, resistindo aos apelos para a espiritualidade ser vista como um novo martelo em uma velha caixa de ferramentas, para acertar pregos estabelecidos na cabeça. Aqueles que são demasiadamente apressados para perguntar o que é exatamente a espiritualidade , e como exatamente ela vai ajudar a criar um novo conceito político e novas agendas políticas estão, de fato, perpetuando o problema e perdendo o foco.

A contínua negligência do espiritual na sociedade moderna não é benigna, pois ela serve para reprimir e estigmatizar recursos intelectuais que não são redutíveis a objetivos claros, definições precisas e medidas repetíveis. Reavaliar o espiritual significa precisamente desafiar a hegemonia do pensamento tecnocrático, e fazer o debate público menos instrumental em sua natureza. Uma vez que você percebe que questões de significado, o sagrado e a transcendência não são domínio exclusivo da religião, torna-se óbvio que eles devem representar uma parte maior da vida política.


Em seu texto clássico, Auto-Despertado (Self Awakened), o conceituado filósofo político Roberto Unger coloca as coisas dessa forma: "Se o espírito é um nome para as faculdades resistentes e transcendentes do agente, podemos espiritualizar a sociedade. Podemos diminuir a distância entre o que somos e o que nós encontramos fora de nós mesmos”.

A necessidade de diminuir a distância entre o que somos e o que nós encontramos fora de nós mesmos é um dos grandes desafios do momento atual que mostra porque vale a pena lutar pelo espiritual.  Tanto o termo “espiritual” como sendo algo que possui profunda relevância política,  quanto a metáfora de lutar, de reconhecer o espiritual, não são questões fáceis ou escapistas, mas sim pontos críticos importantes sobre os quais o trabalho humano deve ser aplicado.

De acordo com uma sondagem de 2013 pela organização Theos, 59 por cento dos adultos britânicos acreditam em "algum tipo de ser espiritual ou essência" e quase um quarto dos ateus "acredita em uma alma humana", mas tais valores apenas aumentam a sensação de confusão espiritual. É como se as linguagens disponíveis tivessem se tornado muito saturadas para transmitir um significado. Em parte, isso acontece porque as ferramentas de pesquisa construídas para medir e interessar a mídia são demasiado toscas para capturar as complexidades da experiência humana.

Um problema mais profundo é que a nossa noção de senso comum sobre crença como conhecimento diluído ou incompleto não capta o sentido mais rico da crença como identificação de grupo, práticas compartilhadas e afinidade por convivência. Crenças sobre valores e significados e a realidade verdadeira não são formadas ou mantidas da mesma forma como as nossas crenças sobre fatos básicos; em vez disso elas surgem de forma sutil e inconsciente a partir da osmose social e cultural.

A espiritualidade permanece ambígua
Aqueles que dizem que espiritualidade nada tem a ver com "crença" estão, portanto, apenas meio corretos, mas a espiritualidade permanece ambígua inclusive por uma boa razão. Não é um conceito unitário, mas uma placa de sinalização para uma gama de critérios; nossa busca por sentido, nosso senso do sagrado, o valor da compaixão, a experiência da transcendência, a fome por transformação.

Tais critérios são essencialmente humanos ao invés de meramente religiosos, e são buscados tanto no mundo urbanizado hiper-conectado e em constante movimento como em uma tranquila igreja de aldeia. Por exemplo, quando você considera a onipresença das armas de distração em massa, incluindo anúncios e smartphones, sendo treinados para se "reconectar com a respiração através de profunda meditação", pode perceber que isso não está aí para a gente alcançar nossa paz individual. Na verdade, trata-se do ensaio de uma guerra mais ampla para o controle da nossa atenção.

Considerado superficialmente, beber álcool é para relaxar, mas, fundamentalmente é para escapar do eu e sua incessante vibração interna. Torcer para equipes de futebol é, superficialmente, uma forma de entretenimento, mas, no fundamental, atende a uma profunda necessidade de solidariedade e de ritual. E quais são esses momentos que nós, em silêncio,  ansiamos viver, se não pedaços da transcendência?


A necessidade espiritual e de expressão é perene, mas se manifesta de acordo com o contexto histórico e cultural, e esse contexto é curiosamente cobrado no momento presente. Como investigador principal deste projeto de dois anos da RSA, notei que a simples menção da palavra espiritualidade provoca reações curiosas que podem ser lidas nas expressões faciais das pessoas, dividindo-as em três grupos principais:


1. Espirituais de mercado (Spiritual Swingers): São animados, arregalam os olhos, mas às vezes eles olham para você como quem quer e precisa de alguma ajuda. Gostam de meditação e massagens, de misticismo em ashrams e  mosteiros, adoram o luar e as técnicas de meditação de atenção plena. Estão dispostos a experimentar qualquer coisa, contanto que seja "espiritual", e de preferência não muito "religiosa".

2. Diplomatas religiosos: Olham para você calorosamente mas um tanto intrigados, porque eles não conseguem descobrir qual é a sua verdadeira motivação. Será você, no fundo, um deles? Ou você secretamente deseja substituir os métodos estabelecidos que eles já conhecem por algo sedicioso e não plenamente confiável?

3. Assassinos intelectuais: Apenas olham para você o mais educadamente possível. Seu olhar de desconforto chega a beira do desdém e são os mais rápidos a pedir a você uma definição do que é o espiritual, mas geralmente com o expresso propósito de desprezá-lo.

O desafio, no momento presente, é revitalizar o espiritual de uma forma sensata e inclusiva; madura o suficiente para manter diplomatas religiosos a bordo, sofisticada o suficiente para manter assassinos intelectuais apaziguados, e politicamente relevante para os desafios modernos relacionados a problemas "maiores do que eu" como o terrorismo ou as alterações climáticas.

No movimento Spiritualize nós nos concentramos no amor; na nossa necessidade de pertencer a algo que vá além de nós mesmos; na morte; na nossa intermitente consciência de simplesmente estarmos vivos; no Self (o Eu impessoal ou superior); no nosso caminho de individuação espiritual através da auto-integração e da auto-transcendência; na alma; no nosso  senso de integridade e transcendência, experimentado através do belo e do sublime.

O triste é que, na concepção generalizada que temos hoje de religião, temos terceirizado esses recursos sociais, culturais e psicológicos para uma agenda cripto-consumista elaborada em projetos de identidade casuais destinados exclusivamente aos "spiritual swingers". O que poucos percebem, no entanto, é que não foi esse tipo de espiritualidade comercializada que roubou a religião, mas que, enquanto a religião estava olhando para o outro lado, o consumismo roubou a espiritualidade.


Através de secularização gradual ocorrida nos séculos 18, 19 e início do 20, a sociedade removeu a religião da nossa economia política para tentar limitar o abuso de poder fora de controle democrático. Com razão, mas este processo causou alguns danos colaterais para a linguagem do valor intrínseco. Uma implicação, destacada pelo professor da Harvard Michael Sandel, é que lenta mas seguramente uma sociedade com mercado se tornou uma sociedade de mercado.

Re-conceber o espiritual tem a ver com tentar lidar com essa perda corrosiva da perspectiva, além de fornecer perspectivas mais profundas sobre como estimular a convicção necessária para lidar com problemas como as alterações climáticas e a desigualdade da riqueza global que estão claramente fora do alcance de qualquer cálculo tecnocrático.

Um exemplo deste tipo de linguagem política ficou evidente no BBC Question Time logo após o referendo da independência da Escócia. Uma das principais defensoras do Sim (à independência), a jornalista Lesley Riddoch foi questionada se era hora de aceitar o resultado final -onde a maioria optou pelo Não- e estabelecer um limite sob a questão constitucional. Ela reconheceu o resultado, mas o qualificou com uma observação que foi muito mais profunda: "O nível de ativismo, comprometimento, imaginação, amizade, camaradagem... Foi o melhor ano da minha vida; do ponto de vista da humanidade e otimismo que foi gerado. Se você foi parte disso... É tão precioso, é tão incomum, que você realmente sente que você não quer ver isso ir embora”, disse Riddoch.

Em uma sociedade que tem sido chamado de cristã, pós cristã, multi-fé, espiritualmente pluralista, secular, pós-secular e pós-religiosa, precisamos de uma discussão pública muito melhor sobre a espiritualidade que partilhamos. É hora de reorientar essa discussão longe daquilo que nunca poderemos realmente saber sobre o nosso lugar no universo, em direção ao que podemos saber, e vivenciar, sobre nós mesmos.q

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