A cura que vem de dentro

terça-feira, 7 de junho de 2016



* Por Mariana Colombino 

“Pessoas sãs não geram negócios” é apenas uma das frases de Guylaine Lanctôt em seu polêmico livro A Máfia Médica (1994), que lhe custou a retirada de seu diploma em medicina. Nele, a ex-médica canadense expõe o complô formado pelo sistema sanitário e pela indústria farmacêutica, e a errônea concepção de saúde e enfermidade da sociedade ocidental moderna. Em um mundo onde o capitalismo e o culto à estética imperam, o ditado “mente sã, corpo são” fica em segundo plano. Bater cartão em clínicas médicas, sujeitar-se a tratamentos invasivos, praticar a hipocondria, exercitar-se à exaustão e seguir uma dieta rica em proteínas constituem a fórmula atualizada do elixir da longa vida.

Porém, ainda que as grandes marcas fomentem esta realidade e que a maioria das pessoas tenha a concepção errada sobre saúde e felicidade, uma luz no fim do túnel tem ficado mais forte, a ponto de incomodar as grandes organizações de saúde e “bem-estar”, que lucram bilhões com a denominada indústria da doença. Tratar mente, corpo e espírito — o indivíduo em sua totalidade — pode ser mais eficaz que o consumo exagerado de remédios.

Hoje em dia, cada vez mais pessoas se conscientizam da complexidade do corpo humano, e de como a enfermidade nunca se manifesta somente no físico ou apenas na mente. O câncer é um exemplo de que o corpo se fragiliza, após um grande período de sofrimentos, conflitos e frustrações, que transbordam até ferirem o organismo. O inverso também é possível. Males como a depressão e a ansiedade podem culminar em sinais palpáveis como doenças de pele, enxaquecas, úlceras etc. Não é mera coincidência justamente o câncer e a depressão serem conhecidos como as “doenças do século”. No cenário atual, a saúde se tornou tão caótica quanto a vida contemporânea.

Hipócrates, pai da medicina, já dizia bem antes de Cristo que o conhecimento do corpo é impossível sem o conhecimento do homem como um todo. E é seguindo esta ideia que a Medicina Integrativa está disposta a abalar as estruturas ortodoxas.

Um novo conceito de vida saudável
Criada em universidades americanas em meados de 1970, a Medicina Integrativa convida instituições de pesquisas, hospitais, unidades de saúde e consultórios a mudarem o paradigma do tratamento médico. A doença não é mais o foco de estudo, mas o indivíduo em sua totalidade — mente, corpo e espírito. O paciente passa a ser visto como o principal responsável por sua melhora e é conduzido a entender que a cura vem de dentro para fora, e não o contrário. Os remédios, tratamentos e cirurgias são encarados como agentes catalisadores do processo de recuperação do organismo, e não mais os grandes protagonistas da cura.


Para os convencionais, é importante destacar que a Medicina Integrativa não vem para substituir a Medicina Convencional, mas para criar novas possibilidades de tratamento, tanto para quem está sofrendo com uma doença, quanto para quem tenta mantê-la à distância. Uma vez que a Medicina Convencional está vinculada aos interesses do mercado, não é lucrativo que sejam oferecidas todas as respostas para os problemas do ser humano. Afinal, a saúde intacta faz com que as pessoas deixem de comprar medicamentos.

As reais intenções da indústria farmacêutica são uma incógnita. Logo, limitar-se à prescrição de remédios talvez signifique limitar a cura do paciente. A saúde é o bem mais valioso do ser humano, e não um negócio.

Mas, como o capitalismo e a busca incessante pelo poder ainda falam mais alto, cabe a cada um de nós deixar o ceticismo e os preconceitos de lado, e adotar o caminho da consciência, do autoconhecimento, do bem-estar e felicidade. O destino dessa caminhada é, com certeza, transformador.

O mercado integrativo no mundo
No Brasil, instituições renomadas de saúde e pesquisa científica, como os hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, também já se mostram adeptos das novas abordagens terapêuticas e do fortalecimento na relação entre pacientes e profissionais da saúde. Por isso, não estranhe se você entrar em algum deles e se deparar com placas indicando setores de yoga, acupuntura, reiki e hipnose. A busca e necessidade dessa nova abordagem é tão grande que o Albert Einstein abriu o primeiro curso de pós-graduação em Medicina Integrativa do país.

Nos EUA, o congressista democrata Tim Ryan foi tão tocado pela meditação que se transformou em um ativista da Medicina Integrativa. Ele patrocinou um projeto de lei para aumentar a prática da Medicina Holística em algumas escolas, o que já trouxe efeitos positivos nas salas de aula: as crianças aprenderam a neutralizar explosões emocionais e problemas comportamentais, a respirar fundo e a terem uma vida mais balanceada.

Neste processo de entendimento que a saúde pode se estabelecer na harmonia interna do ser humano, a busca pelo simples e natural ganha força. O chá da vovó para indigestão, o escalda-pés para resfriados, o banho de assento para vários males, a energia dos cristais para renovação da energia. Ações simples e muitas vezes baratas, que nos conectam com nossos ancestrais e com a natureza.


Marcas e instituições de pesquisa mais open-minded percebem o movimento integrativo e apostam neste nicho. Primeira Folha e Sacerdotisa, figuras carimbadas de pequenas feiras paulistanas, têm produtos interessantes para cuidar da alma, flertando com sabedoria popular e superstição. Em São Paulo, a Aromaflora disponibiliza cursos de Aromaterapia e Joel Aleixo ensina Terapia Floral para interessados. Além disso, todos os dias novos espaços de yoga, meditação, nutrição ayurvédica e terapias alternativas abrem suas portas.

O processo mais artesanal e humano destas pequenas marcas, o controle do processo produtivo e a criatividade são diferenciais que vão na contramão da frieza calculista do mercado que enxerga a doença como dinheiro. A hipocondria generalizada imposta por este sistema cruel também pode ser um tipo de consumismo.

Da próxima vez que você tiver uma dorzinha de cabeça boba, tente um chá e um tempo de silêncio em vez de apelar para a aspirina. Investigar, associar alternativas e manter-se aberto a novas possibilidades são formas de exercitar uma vida mais consciente.

* Mariana Colombino  é redatora e roteirista publicitária mas decidiu usar seu dom da escrita para um bem maior: o despertar da sociedade.

|| Via Ponto Eletrônico
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