Religiosidade é buscar dentro de si mesmo

segunda-feira, 17 de setembro de 2018



Por Marcos de Aguiar Villas-Boas

    As religiões, de um modo geral, ao longo da história têm recaído, em regra, em pessoas doutrinadas que seguem messias, livros, sacerdotes e dogmas. Cada um se afiniza com aquilo que vibra e as religiões terminam servindo àqueles que estão nas suas faixas de vibração, mas elas são desnecessárias para a ascensão espiritual, que tem a ver muito mais com um processo de autoconhecimento e automelhoramento.

    A religião que liga o indivíduo ao divino dentro de si não trata de seguir algo, mas apenas de encontrar a si mesmo por meio de uma constante busca. Religiosos tradicionais são seguidores de instituições, messias e gurus, mas religiosos, na acepção real da palavra, são buscadores.

    Então, meu trabalho não é um movimento para criar uma religião, mas para criar religiosidade. Eu encaro a religiosidade como uma qualidade – não como uma parte de uma organização, mas como uma experiência interior do próprio ser” (Osho, Autobiografia de um místico espiritualmente incorreto).

    Os verdadeiros mestres estão dentro de cada um, cada indivíduo é um mestre em potencial, de modo que só precisa despertá-lo. Os encarnados, que se sentem ainda tão dependentes de heróis, santos, messias, mestres etc., têm o mestre dentro de si, mas ainda não acreditam nisso.

    A humanidade não precisa de mais mestres que se apresentam como gurus dispostos a responder sobre todos os assuntos e a serem seguidos pelos demais. O processo de transição planetária da Terra requer facilitadores do autoconhecimento e do automelhoramento da humanidade, que colaborem para o despertar do mestre dentro de cada indivíduo, com a libertação das ilusões e limitações, muitas delas impostas pelo inconsciente coletivo e por atavismos individuais.

    É por isso que se fala tanto em despertar, expandir, ampliar a consciência como o objetivo mais importante da encarnação. Daí pode se entender até a utilidade do sofrimento, que, por linhas tortas,  muitas vezes consegue tirar o indivíduo daquela estagnação e lhe levar a perceber algo novo.

    Carl Jung já dizia que é preciso acordar o mestre em cada um por meio da aproximação entre o ego (a personalidade do encarnado) e o seu Eu superior (o espírito). É como ir continuamente desvelando ilusões e limitações até que sobre apenas a centelha divina, o puro amor incondicional.


    Pode-se falar em diferentes níveis de consciência pelos quais vamos passando à medida em que nos conhecemos melhor e em que estamos mais em paz conosco e com os outros, compreendendo nossas peculiaridades e as dos demais. Enquanto estamos em um nível de consciência, é muito difícil compreender alguns aspectos mais afetos aos níveis conscienciais superiores.

    Daí porque muitas pessoas não se entendem umas com as outras. Em diferentes níveis de consciência, de capacidade de compreensão da realidade, é muito mais difícil que haja concordância, e não adianta um tentar ficar impondo sua verdade ao outro, pois não se deve exigir do outro aquilo que ele não pode dar. É falta de inteligência e, sobretudo, de sabedoria querer tirar leite de pedra, expressão que apenas faz sentido na linguagem figurada, e não na experiência. 

    Os seres humanos, e isso é muito vivo nas religiões, tentam mudar uns as ações dos outros, mas o que deveria ser feito, de forma cautelosa e amorosa, é tentar despertar a consciência uns dos outros. Para que haja mudança de pensamentos, sentimentos, emoções e ações, é preciso que primeiro haja mais consciência, mais luz, mais percepção.

    “Para mim foi uma surpresa descobrir que quando você se torna silencioso, quando se torna consciente e mais alerta, suas ações começam a mudar – e não vice versa. Você pode mudar suas ações, mas isso não o tornará mais consciente. Quando você se tornar mais consciente, é que suas ações vão mudar...Isso é absolutamente simples e científico. Você estava fazendo algo estúpido; à medida que você se tornar mais alerta e mais consciente, não poderá mais fazê-lo” (Osho, Autobiografia de um místico espiritualmente incorreto).

    Osho acerta em cheio na importância da meditação para o despertar da consciência e, diferentemente da maioria, ensina que meditar não é simplesmente aplicar algumas técnicas de respiração e de limpar a mente. Para ele, meditar é estar consciente e isso pode ser feito de forma ativa, observando a sua volta sem ficar verbalizando, ou seja, é sentir a realidade sem deixar a mente ser barulhenta, ficar trazendo inúmeros pensamentos. A verbalização mental é, então, ligada e desligada durante o dia. Apenas é usada quando necessário para se comunicar, por exemplo. 

    Na visão de meditação ativa de Osho, a pessoa pode estar nesse estado durante todo o dia, pois ela não depende de um local sem barulho, nem de mantras. O que amplia a consciência, segundo ele, é praticar o estar consciente, alerta, com a mente silenciosa, o máximo de tempo, e isso faz muito sentido.

    Não estamos a dizer que as técnicas de meditação não ajudam. O próprio Osho criou algumas específicas para os ocidentais. Há vasta comprovação científica de que elas alteram o cérebro para melhor e provocam inúmeros benefícios às pessoas, mas, como concluíram Daniel Goleman e Richard J. Davidson no livro A Ciência da Meditação, há diversos outros aspectos importantes a serem integrados à prática meditativa para que a pessoa sinta resultados mais palpáveis.  

    Osho também acerta ao afirmar que é a consciência se despertando o que vai alterando as ações, não sendo possível exigir que alguém mude se ela continua vendo as coisas da mesma forma. Isso reforça a ideia de que impor nunca é a solução. É preciso utilizar de artifícios argumentativos e práticos, como a meditação e terapias, para que a pessoa desperte daquele sono de consciência no qual se encontra.


    “Quando a consciência torna-se assentada, todos os padrões de vida mudam. O que as religiões chamam de pecado desaparece, e o que chamam de virtude automaticamente flui de seu ser, de suas ações. Mas as religiões têm feito exatamente o contrário, tentando mudar primeiro os atos. É como se as pessoas estivessem numa casa escura, tropeçando nos móveis e nos objetos, e dissessem a elas que não terão luz a menos que parem de tropeçar. O que estou dizendo é: traga a luz e os tropeços desaparecerão” (Osho, Autobiografia de um místico espiritualmente incorreto).

    Não se deve achar que a meditação irá necessariamente tornar a pessoa feliz de uma hora para a outra e para sempre, apesar de que, se já estiver pronta, isso pode acontecer. A meditação, os estudos sem limitações religiosas, as terapias para autoconhecimento, a busca por compreender tudo e todos com amor incondicional são passos que tendem a levar ao despertar da consciência, mas há muitos degraus.

    Não é incomum olharmos para o ano anterior e percebermos que não entendíamos certas coisas as quais estão mais claras agora ou que cometíamos erros que não cometemos mais. Isso é uma ascensão na escada da consciência, um passo no despertar. A cada momento em que reconhecemos mais dos nossos equívocos, lança-se luz sobre as sombras e, a partir dali, fica muito mais fácil de se dominar e de até usar as sombras em nosso favor.

    Se perceber, aceitar e reconhecer as nossas ilusões e limitações, que é o mesmo que lançar luz sobre as nossas sombras, é o caminho para estar consciente do que se faz de negativo e transmutar isso em positivo, as pessoas precisam parar de se auto-sabotar, de jogar para debaixo do tapete aquilo que incomoda, de se ferir quando alguém lhe mostrar um erro.

    Quanto mais à luz estiverem as sombras, mais iluminadas estarão e mais fácil será lidar com elas. É por isso que é útil fazer boas terapias (psicanálise, thetahealing, consultas com guias espirituais etc.) e lançar luz sobre as sombras a partir de um terceiro, assim como é útil procurar sozinho a erupção das sombras, trazê-las à luz, por meio de medicinas de cura xamânicas, por exemplo.

    Quanto mais se segue dogmas, quanto menos se questiona, quanto mais alguém se julga perfeito ou próximo da perfeição, quanto mais entende ter sido salvo por alguém ou por uma religião, mais ele ou ela irá deixar de buscar o autoconhecimento, o automelhoramento e um conhecimento mais diverso, mais amplo.

    O momento é de encontrarmos o mestre em nós mesmos, e não de continuarmos seguindo. Não é mais tempo de seguir gurus que estão prontos para dizer o que os outros devem pensar, sentir e fazer a respeito de tudo, mesmo quando não têm conhecimento ou não viveram aquilo na prática.

    A religião tradicional torna as pessoas seguidoras, fieis, adoradoras, mas a religiosidade, a espiritualidade, torna-as buscadoras, questionadoras, pesquisadoras, sensitivas, conscientes.q

    *Marcos de Aguiar Villas-Bôas é terapeuta holístico, espiritualista universalista, reikiano, praticante de meditação e amante do todo e de todos. Busca despertar a consciência, o mestre dentro de si, e ajudar os outros a fazerem o mesmo.
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